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Às vezes eu fico pensando: se a vida fosse uma estrada reta, lisa, sem uma única curva… a gente dormia no volante.
Curva cansa, dá medo, atrasa. Mas é ela que mantém a gente desperta, presente, viva.
A gente vive sonhando com uma existência linear, sem caos, sem imprevisto, sem estrada esburacada. Mas, no fundo, você sabe: é o caos que dá contorno à sua história. É na curva que você descobre quem você é quando precisa responder à vida.
Na Jornada Do Caos ao Cosmos, o Dia 1 foi o “Haja luz”: consciência.
Hoje eu quero te convidar para o Dia 2: o dia em que Deus não cria nada novo… Ele só separa as águas.
E isso muda tudo.
O texto de Gênesis diz mais ou menos assim:
“Haja um firmamento entre as águas, que se faça separação entre águas e águas. Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das águas que estavam acima.”
Repara:
No dia 1, vem a luz.
No dia 2, não nasce nada “novo”. Não tem planta, não tem bicho, não tem ser humano.
Tem organização.
Antes de crescer, Deus arruma a casa.
Antes de criar, Ele separa.
E aqui entra a nossa Chave 2:
“Antes de sair fazendo listas e metas para 2026, você precisa separar as águas dentro da sua vida.”
Quando a Bíblia fala de água, ela está falando de um elemento que abraça tudo, ocupa todos os espaços, se espalha se não tiver borda. Como as nossas emoções.
Na psicologia, a gente tem esse termo tão falado: inteligência emocional.
Na prática, é a capacidade de:
perceber o que eu estou sentindo,
dar nome à emoção,
e escolher o que eu vou fazer com isso.
Não é “não sentir”. É separar.
Eu posso tomar um susto no trânsito, sentir medo, em seguida vir raiva, vontade de xingar…
Mas ali, em segundos, entra o firmamento:
“Essa buzina aqui é pra descarregar minha raiva ou pra evitar um acidente?”
A emoção vem como um mar.
A inteligência emocional constrói um firmamento interno: um espaço entre o que eu sinto e o que eu escolho fazer com isso.
É disso que o Dia 2 fala:
não é de virar um robô sem emoção,
é de separar as águas: que emoção é essa? o que eu faço com ela? o que não faço?
Quando teólogos, filósofos e cabalistas olham para esse texto, é muito comum encontrarmos essa leitura:
Águas de cima → o que é mais sutil: valores, propósito, visão de mundo, fé, espiritualidade, consciência.
Águas de baixo → o mundo concreto: contas, agenda, corpo, rotina, trabalho, boletos.
Uma coisa importante:
não é que as águas de cima sejam “superiores” e as de baixo “inferiores” no sentido de valor.
Você está num corpo. Eu também.
Matéria importa. Espírito também.
O que o Dia 2 nos ensina é:
“Você precisa discernir o que é de cada ordem — e impedir que uma sabote a outra.”
Alguns exemplos:
Água de cima:
Qual é a intenção mais alta do meu trabalho?
Que sentido ele gera na minha vida além do depósito no fim do mês?
Qual é o propósito desse fazer?
Água de baixo:
Meus horários, meus atendimentos, meu chefe, minhas planilhas, o salário, o trânsito.
Quando uma pessoa trabalha de sol a sol sem ver sentido, as águas se chocam.
O corpo aguenta um tempo. A alma não. Vem o adoecimento.
Água de cima:
Que tipo de relação eu desejo?
Que valores eu quero viver? Alegria? Respeito? Profundidade? Leveza?
Água de baixo:
Como são, de fato, as conversas, as trocas, o dia a dia?
Essa pessoa me escuta? Me respeita? Me agride? Me ignora?
Se, lá em cima, você deseja paz…
e, aqui embaixo, vive relações de guerra o tempo todo, tem um choque de águas acontecendo.
Água de cima: “Eu quero ter uma mente mais calma.”
Água de baixo: indo dormir todo dia rolando tragédia no feed.
Não combina.
Não dá pra chamar de “azar” o caos que eu mesma alimento diariamente.
Discernir é isso:
“Perceber onde a minha água de baixo não conversa com a água de cima – e admitir que eu vou precisar tomar decisões.”
Deus não seca um mar para manter o outro.
Ele não destrói as águas de baixo para exaltar as de cima.
Ele separa para que coexistam.
É isso que eu repito na live e repito aqui: separar não é romper, é dar espaço.
Separar o que é energia pro trabalho da energia pra vida pessoal.
Separar o que é papel de mãe, pai, filha, profissional, de quem você é para além desses papéis.
Separar o que é cuidado com o outro do que é falta de cuidado com você.
Quando a gente não usa essa chave, tudo se mistura:
você é mãe 24h por dia e esquece que é mulher,
é profissional 24h por dia e esquece que é pessoa,
é filha cuidadora 24h por dia e esquece que também precisa ser cuidada.
O nome disso é: vida sem firmamento.
Água demais em tudo, você afoga.
Eu preciso te contar essa história porque ela é a cara do que acontece quando a gente quer pular o Dia 2.
Quando me mudei para casa onde eu moro hoje, fui comprar uma geladeira.
Achei uma linda, enorme, com tablet, porta pra lá, porta pra cá. A geladeira era quase um membro da família.
Medi “de qualquer jeito”, achei que dava.
Chegou a geladeira. Os entregadores olharam pra mim:
“É pra entrar aqui, senhora?”
Era. Mas… não entrava. Não passava na porta da sala. Não passava no corredor. Não passava pra cozinha.
Resumo:
a geladeira entrou, mas só depois de uma pequena reforma. Eu tive que adaptar a casa para caber a geladeira que eu tinha escolhido sem discernimento de espaço.
Deu certo? Deu.
Foi engraçado? Hoje é.
Mas foi caro, trabalhoso e completamente evitável.
Isso é o que a gente faz quando:
compra projetos enormes que não cabem na nossa agenda,
diz “sim” para tudo, antes de saber se tem espaço,
assume funções e pessoas que não passam pela “porta” da nossa energia.
O Dia 2 está te dizendo:
“Antes de criar, organiza. Antes de comprar a geladeira, mede a porta. Antes de dizer sim, olha o mapa da sua vida.”
Quando eu estava preparando esse encontro, lembrei de Marie Kondo, a japonesa dos livros, séries e vídeos sobre organização.
Ela passou cinco anos servindo em um templo xintoísta.
No xintoísmo, os objetos têm energia:
energia boa,
energia pesada,
ou energia estagnada, como água parada criando mosquitos.
Sabe qual é a técnica dela?
Você pega todas as roupas da casa.
Joga em um único monte.
Depois separa por categoria:
um monte de blusas,
um monte de calças,
um monte de casacos…
E aí vem a pergunta central:
“Isso desperta alegria em mim?”
Se sim: fica.
Se não: agradece e deixa ir – doação, venda, descarte.
Parece que você está lidando com tecido.
Mas está lidando com energia acumulada, com memórias, com a sua dificuldade de dizer adeus.
Eu já fiz esse processo. Esvaziei todos os guarda-roupas, joguei tudo numa cama.
Levei quase duas semanas. Não porque eram só muitas roupas, mas porque era muita decisão, muito apego, muito encontro comigo mesma.
Agora, imagina trazer a lógica Marie Kondo pra vida:
Fazer um monte de projetos,
um monte de relacionamentos,
um monte de hábitos,
um monte de compromissos.
E perguntar:
“Isso ainda desperta alegria, sentido, crescimento?
Ou só ocupa espaço e me afoga?”
Esse é o coração da Chave 2.
Na live eu te convidei a montar alguns montes simbólicos.
Aqui, vou te deixar três perguntas que valem como exercício:
Coisas, pessoas, práticas, trabalhos que realmente:
te alimentam,
te fazem crescer,
te conectam com quem você é.
Esse é o monte do “eu levo para 2026”.
Tudo aquilo que:
você não usa,
não gosta,
não quer mais,
mas deixa ali “porque sempre foi assim”, “vai que um dia eu preciso”, “foi caro”.
Na casa, isso dá mofo.
Na alma, isso dá peso.
Mágoas antigas, culpas herdadas, medos que você chama de “realismo”.
Relações que só subtraem.
Projetos que só sugam, não devolvem nada.
Esse é o monte do “eu preciso ter coragem de liberar”.
Separar as águas aqui é olhar e dizer:
Isso é meu, faz sentido, eu honro e levo.
Isso foi importante, eu agradeço e devolvo.
Isso nunca foi meu, eu estou carregando por medo, culpa ou hábito… e posso soltar.
Te conto mais uma sincronicidade, porque Jung não inventou esse conceito à toa.
Eu estava pensando se continuava ou não com um projeto muito querido: o Cine Debate Logos.
Um evento gratuito, uma vez por mês, filme + discussão psicológica. Eu amo. Mas precisava rever tudo para 2026.
Coloquei o projeto no “monte de análise”.
No mesmo dia:
uma pessoa apareceu na clínica achando que o Cine Debate era naquele dia (não era);
outra me mandou mensagem falando do Cine Debate do dia seguinte (que não aconteceria porque eu estava em viagem).
Duas pessoas, no mesmo dia, esbarrando no mesmo projeto que eu estava questionando.
Eu poderia chamar de coincidência.
Mas eu chamei de resposta.
Quando você se dispõe a olhar pros seus montes – de projetos, de pessoas, de hábitos – o universo se mexe.
As coisas começam a dar sinais:
onde é para insistir, onde é para transformar, onde é para encerrar um ciclo.
Mas, pra isso, você precisa entrar no jogo.
Você precisa se permitir separar as águas.
Discernir dói.
Tomar decisão dói.
Enquanto eu finjo que “tá tudo bem”, eu não preciso decidir nada.
No dia em que eu reconheço que aquela relação, aquele trabalho, aquele modo de viver não combinam com as águas de cima da minha alma, eu vou ter que escolher.
E aí vem:
tristeza,
culpa,
saudade,
medo de decepcionar.
É pesado como a cama cheia de roupa.
Mas é libertador como o guarda-roupa depois que você termina.
Honrar pai e mãe não é carregar para sempre ensinamentos que hoje te fazem mal.
Honrar sua história não é repetir padrões que já te adoecem.
Honrar a Deus (ou a Vida, ou o seu próprio coração) não é continuar dizendo “sim” a tudo que te afoga.
Você é um espaço sagrado:
a sua casa,
o seu corpo,
o seu ambiente de trabalho,
a sua alma.
Esses templos precisam ser respeitados.
Respeito, aqui, se escreve com uma palavra: discernimento.
Se eu pudesse resumir tudo que te entreguei nesse Dia 2, eu diria assim:
“Separar as águas é olhar para o que é de cima (seus valores, sua alma, seu propósito) e para o que é de baixo (sua rotina, agenda, contas, relações) e criar um firmamento amoroso entre os dois.
É decidir o que você leva e o que você não leva mais para 2026.”
Antes de plantar qualquer semente no seu ano novo,
você precisa limpar o terreno, separar as águas, organizar a casa interna.
Amanhã a gente chega na terra firme e na vegetação.
Mas, por hoje, te deixo uma pergunta:
Qual é a primeira água que você precisa separar na sua vida: trabalho, relação, casa, corpo, mente ou espiritualidade?
Começa por ela.
O resto, a gente constrói junto, de curva em curva, do caos ao cosmos.
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