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Oráculo da Alma | Aleph
Aprender a criar a partir da quietude
O som do silêncio que gesta o novo
Há palavras que revelam mais do que dizem.
Há símbolos que não foram feitos para serem entendidos, mas para serem respirados.
No Oráculo da Alma que encerra este mês, voltamos à origem: Aleph (א), a primeira letra do alfabeto hebraico, o ponto onde o silêncio se transforma em criação.
Para a Cabala, Aleph é princípio e retorno.
Richard Seidman escreve em O Oráculo da Cabala que “Aleph não é pronunciada, mas sustenta o som de todas as vozes, é o vazio onde o Criador respira.”
Na tradição mística hebraica, ela representa o Uno invisível, a origem que antecede a criação, o intervalo entre o caos e o cosmos.
Mas, quando vista pela lente da alma, Aleph é mais do que um princípio místico:
é o instante em que o ser humano se recorda de que o sagrado habita dentro.
Retornar ao templo interior
Numa live que fiz em 2023, contei como Aleph me encontrou quando o mundo externo estava barulhento e eu precisava voltar para dentro.
Relembrei o sentido de profanum: tudo o que fica fora do templo.
O sagrado, portanto, é o dentro — o nosso Santo dos Santos.
Aleph me ensinou a proteger esse espaço e a visitá-lo com frequência.
É lá que lembramos quem somos quando cessam os papéis e as urgências.
Ela me fez regressar ao meu Santo dos Santos, esse recanto silencioso da alma onde mora o que é essencial.
Ali não entram ruídos nem demandas, apenas o sopro que recorda quem eu sou.
Mircea Eliade observa que o sagrado se revela de um modo diverso do comum.
Não é o céu em si, mas a consciência que desperta ao contemplá-lo.
Aleph abre essa consciência — um ouvir mais fundo que antecede qualquer resposta.
O vazio onde a alma aprende a criar
No primeiro livro bíblico, Gênesis, o começo de tudo se dá a partir do “sem forma e vazio”.
Em linguagem psíquica, é o momento em que suportamos o não-saber.
Aleph é justamente esse espaço inaugural — não um buraco estéril, mas um vazio prenhe, onde as formas amadurecem antes de aparecer.
Na psicologia de C. G. Jung, o símbolo é o melhor modo de expressar aquilo que ainda não cabe em conceitos.
Ele faz ponte entre o consciente e o inconsciente.
Aleph é essa ponte silenciosa.
Ficar com Aleph é permanecer no intervalo até que o sentido venha por si.
Marion Woodman chama isso de feminino encarnado: uma presença receptiva que gesta no escuro e confia no tempo do invisível.
É aqui que o nosso oráculo se condensa em uma direção prática para a vida: aprender a criar a partir da quietude.
Em vez de forçar o novo, permitimos que ele se forme — como a semente que rompe a terra de dentro para fora.
O Sopro e o Silêncio
Na língua hebraica, Aleph é uma letra muda: a boca apenas se abre e se fecha como um sopro.
A tradição recorda o hálito que anima a matéria — o Sopro de Deus que desperta a vida pela respiração.
Simone Weil chama de atenção orante essa postura: um modo de presença que não tenta preencher o silêncio, apenas o escuta — usando para isso os sentidos mais sutis, sobretudo a intuição, essa habilidade feminina tão antiga.
Quando a atenção está limpa, a realidade se mostra com nitidez;
quando a respiração encontra seu ritmo, o verbo encontra sua forma.
Do ponto de vista clínico e existencial, isso tem efeito direto:
aquietar não é parar a vida, é dar lugar ao sentido.
Muitas decisões que pareciam impossíveis surgem naturalmente quando o silêncio é honrado —
como naquela experiência que citei na live, em que uma paciente escolheu, sem conhecer, uma letra hebraica, e a leitura simbólica abriu a ação que ela adiava havia meses.
Aleph funciona assim: não empurra, autoriza.
O paradoxo que revela o caminho
Para a mística judaica, Aleph é também o símbolo do paradoxo: é o Um e o Infinito, o Nada que contém o Tudo, sinal do inumerável.
É o ponto de intersecção entre começo e fim, morte e renascimento.
E, neste ponto, quanto mais confusas as coisas parecem, mais perto estão de se clarificar.
Esse é o movimento do paradoxo: o caos que amadurece até se tornar cosmos.
Jung via a saúde psíquica como a capacidade de tolerar os opostos sem rachar por dentro.
Na esquizofrenia, por exemplo, a dificuldade de integrar as grandes energias opositoras do trauma pode gerar uma cisão do ego — criando personalidades dissociadas.
Quando o sujeito não consegue conter dentro de si as diferentes experiências de dor, ele as separa de modo adoecido, fragmentando-se.
Aleph convida exatamente ao contrário: sustentar a ambiguidade — tristeza e alegria, fim e começo — até que um terceiro elemento surja: uma síntese viva, não forçada.
É a função transcendente em ação: do atrito, nasce um novo eixo.
Jung lembrava: “tudo o que resistimos, persiste.”
Aleph, porém, sussurra: solta.
Porque apenas quando nos soltamos é que a vida nos sustenta.
Assim como a criança que se lança nos braços do pai, confiante de que será acolhida, Aleph nos convida à mesma fé essencial — a entrega que precede o milagre.
A arte de criar a partir da quietude
Richard Seidman descreve Aleph como “a letra da respiração, o espaço que sustenta o ser.”
E talvez esse seja o segredo mais profundo do oráculo:
tudo o que é verdadeiro nasce do que está quieto.
Criar não é forçar — é permitir que o invisível atravesse o corpo e encontre forma.
Aleph é o ventre do verbo, o instante em que o indizível se curva para virar som.
O criador, o poeta, a mulher, o terapeuta, o ser humano —
todos aprendem, em algum momento, a criar a partir da quietude.
E é assim que o mundo recomeça:
no sopro leve, na pausa cheia de sentido,
no gesto que nasce do silêncio.
✨ Prática para selar a semana:
Sente-se por três minutos, olhos fechados.
Note a pausa entre a inspiração e a expiração.
Dê a essa pausa o nome de Aleph.
Se vier um impulso de agir, pergunte:
“isto nasce do barulho ou da quietude?”
Agir pelo Aleph é agir do centro — sem violência.
Chamado do Oráculo
“Há um lugar dentro de ti onde o sopro e o silêncio são a mesma coisa.
Retorna a ele.
É lá que Deus sussurra teu nome.”
Aleph é esse retorno:
o início de todos os inícios,
o primeiro som que não se ouve, mas se sente,
e que lembra à alma sua tarefa mais antiga:
respirar, criar e deixar o divino falar por meio de nós.
Silencia o lado de fora para escutar por dentro.
Protege teu Santo dos Santos.
Respira até que o sopro te organize.
Se o momento parecer caos, permanece —
o sentido está amadurecendo.
Quando vier o gesto, que ele nasça do silêncio, não do ruído.
Assim, o novo surge sem que tu o forces.
Referências que inspiram este texto
- Richard Seidman, O Oráculo da Cabala (Aleph como letra silenciosa que sustenta a respiração criadora)
- C. G. Jung, obras sobre símbolo e função transcendente (o símbolo como ponte entre consciente e inconsciente)
- Marion Woodman, reflexões junguianas sobre o feminino encarnado (gestação do invisível, presença receptiva)
- Simone Weil, escritos sobre atenção como oração (presença que revela o real)
- Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano (o sagrado como modo de consciência)
APROFUNDANDO A REFLEXÃO...
Quer ver a live que fiz em Agosto de 2023 desvendando os mistérios do Aleph?
Clique no link abaixo...
https://www.instagram.com/reel/Cvdlt6it7bT/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
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